
Ontem à noite fechei os olhos...
Há tempos não se podia fazê-lo...
Acordei em um avião a muitos quilômetros da Terra.
Ao fundo ouvia o piloto: "Senhores passageiros, este vôo não tem destino, portanto, preparem-se para um pouso forçado."
Silêncio...
Todos continuam sentados e amarrados às suas poltronas apertadas. O olhar: perdido na preocupação de onde íamos.
Depois de um tempo levitando pelos ares desconhecidos, percebi que a aeronave saia de órbita. O incrível: nenhuma cabeça explodiu como nos filmes da infância, nem o ar se esgotou na pressão do que ficou pra trás... Consequência insana onírica; medonha de tão livre, e pensamos cinestesicamente em aproveitar a vista.
Os olhos agora, pra fora da janela, matam saudades dos entes queridos disfarçados de estrelas, admiram os destroços de ilusões mascarados de asteróides; corações, dissimulados de aerólitos; buraco negro, agora furacão da alma. Tudo tinha uma beleza tão especial que nenhum olho aberto poderia ver o que os meus fechados agraciavam. Sentir o calor de um corpo sem mente, sem defeitos, sem passado, sem ervas daninhas, CO2 ou raízes... tudo em coma na magia de esquecer até a si mesmo, quanto mais o mundo...
Mas... Como tudo que dorme tomba...
A arte de dormir pode não ser uma atitude, pode ser a falta de escolha, ou excesso de decisão...
As horas começaram a chover e depois de chuvas de horas bombardeando as asas, as horas também começaram a se esgotar e as asas convulsionavam um tremer ...
A turbulência acorda o monstro do espaço e tempo que devora de uma só vez a casa que me flutuava...
Como avisado no início da viagem, sem destino, de pouso forçado: acordei com a testa ao chão de um quarto frio e meu. Levantei-me sozinha.
Como a vida deve ser...
Joyce Rodrigues
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